Friday, October 09, 2026

O melhor gajo do mundo a lidar com malta da Gen Z

 Eu sou o melhor gajo do mundo a lidar com malta da Gen Z, tanto que tenho um vizinho, o Martim III, que foi o 3.º Martim a morar no prédio, mas curiosamente mora no segundo andar, e o Martim II, que foi o segundo a comprar casa no prédio, mas mora no terceiro andar, foda-se, até tive de fazer um fluxograma em Visio e colá-lo no frigorífico para meter isto na cabeça, e os dois gajos têm vinte e poucos anos, mas só se falam no TikTok através de emojis, e eu sou o único gajo do prédio que consegue ter uma conversa fluida com eles, tanto que no outro dia apanhei o Martim II no elevador e, enquanto ele estava a entrar num bar de putas no metaverso, confessou-me que nunca tinha tido relações físicas, nem com sacristãos, e aí senti-me incumbido de 1) arranjar uma miúda para o rapaz e 2) chamar-lhe um táxi no metaverso, porque o gajo tinha vindo de uma reunião de negócios e já estava com a gravata na cabeça, e então lembrei-me da Gilda, que mora no 7.º andar e que já tinha feito todos os gajos desde a primeira comunhão até ao quarto piso, mas depois o gajo diz-me que não gosta só de mulheres, que gosta sobretudo de pessoas, e que está a ficar sem bateria no telemóvel, e se eu podia falar com ele em modo 2x ou 3x, até porque todo aquele contacto visual o estava a extenuar, e então lembrei-me de o juntar ao Martim III e arranjei uma reunião de condomínio falsa, para a qual convidei apenas os dois, e juntei uma beringela e um donut, numa representação física dos emojis que costumavam trocar nas redes, e a verdade é que hoje o Martim III já dorme muitas vezes no terceiro piso e o Martim II no segundo, e eu sou um gajo de harmonias, desde que paguem o condomínio a horas e fechem sempre a porta da rua.

Friday, February 06, 2015

Eu sou o melhor gajo do mundo a investir na bolsa, isto porque sou como os velhos com o tempo húmido e antes de qualquer dia mau nos mercados, sinto uma ligeira dor no tornozelo que me ajuda a realocar o capital, e isto começou quando fui jogar à bola com uns gajos da Goldman Sachs que estavam em Portugal para caçar gajos pobres num latifúndio alentejano e houve um deles que me deu uma porrada no tornozelo com umas botas que eram bordadas a platina e, senti logo o meu corpo a tremer, como o Peter Parker quando foi mordido pela aranha e ficou sem as dioptrias todas e a partir daí fiquei com uma astúcia financeira tal, que os esclarecimentos que a CMVM me pede são na ótica da aprendizagem e não da arbitragem, estilo: estou a pensar investir numa empresa de desodorizantes em França, o que é que achas? E é por estas e por outras que eu fui o primeiro gajo no mundo a poder emitir obrigações seguras a título particular, tendo oferecido como colateral uma noite com uma vizinha minha que já está toda torta e a procura superou a oferta em sete vezes, tal é a confiança que os mercados depositam em mim, tanto que a gaja agora só tem agenda lá para dezembro.

Monday, February 02, 2015

Eu sou o melhor gajo do mundo a cuidar de bebés tanto que última vez que um bebé bolsou no meu colo foi no Optimus Alive de 2012 e foi porque os Snow Patrol começaram a tocar, que os putos babam-se todos mas não são parvos e há mães que vêm do estrangeiro só para me pôr os miúdos no colo, como uma a gaja que veio da Madeira e que dizia que o filho era a encarnação do diabo, só porque o gajo dizia algumas cenas em latim (que para mim é apenas um sinal de eloquência) e incendiava gatos com o olhar e mal o puto aterrou no meu colo, começou logo a rir como quem diz: eu conheço este gajo de algum lado; e sempre que ele começava  a aparvalhar, eu espetava-lhe com o “Pires de Lima”, que não é mais do que falar de forma enrolada, acentuando as vogais, repetindo sempre a última frase do discurso e ás tantas estabeleci uma confiança tal com ele, que até lhe dei as minhas chaves de casa para brincar e o que é fato é que até hoje não fui assaltado, o que prova que o ser humano é essencialmente bom e que Rousseau ganha a Hobbes em qualquer dia da semana e a mãe do gajo ainda me pediu para gravar umas frases feitas no telemóvel, estilo: “Sai de cima dos canteiros” ou “Isso são diuréticos. Mete os dedos à boca!” só para ele sentir a minha autoridade, mesmo no estrangeiro e acho que o gajo agora está impecável e já nem come bolotas.

Thursday, January 29, 2015

Eu sou o melhor gajo do mundo a jogar xadrez, tanto que quando jogo com outra malta, dou-lhes a possibilidade de restringir os movimentos das minhas peças, um bocado como o Tong Po fez no "Kickboxer" quando começou a aviar o Van Damme só com os cotovelos, e os gajos ficam todos malucos e até metem dinheiro e géneros na coisa tal é a confiança, tanto que agora tenho a casa cheia de plantas trepadeiras e um Opel Trigra com néons na garagem, o que é uma cena fixe para o mecânico do carro, que pode relaxar e beber um copo enquanto olha para o chassis da viatura ou inventariar as manchas de sémen que por lá se encontram, mas para mim acrescenta pouco valor e ganhei-o num jogo contra o filho de um imigrante ucraniano que era virgem e usava óculos e ganhei-lhe só com um rei, com a estratégia do jogo da cobra dos telemóveis antigos, isto porque colocava a malta toda dele atrás de mim até que os entrelaçava numa esquina do tabuleiro, matando-os um a um com gritos de guerra mais ou menos escabrosos e o gajo ficou de tal maneira triste que depois me vi forçado a pagar-lhe um lanche na condição do gajo comer ou um bolo rei, ou um bolo rainha, ou um bispo ou um xadrez mas o gajo não quis e ainda chorou mais um bocadinho até que lhe propus um dobro ou nada e o gajo alinhou, tanto que agora tenho dupla nacionalidade e um cachorro que só responde com o acenar de uma salsicha.

Friday, December 13, 2013

Eu devia ser o único gajo do mundo autorizado a falar do Nélson Mandela (o meu homónimo alegadamente bonzinho), isto porque acompanhei de perto toda a sua vida, incluindo a fase da prateleira, em que o gajo andava com t-shirts góticas e tinha borbulhas que pareciam vulcões de enxofre e sei que ele não era tão fixe como a malta diz e é isso que aqui venho testemunhar.

A alcunha: muita gente trata-o por MADIBA sem saber que a alcunha lhe foi colocada no liceu como acrónimo para MAn who DIdn’t BAthe, isto porque o gajo acabava as aulas de educação física e nem sequer ia ao balneário, ia direto para a aula de Inglês, onde lia o Triunfo dos Porcos do Orwel com uma mise en scéne tão realista que a professora começou a espalhar canfora pelos cantos da sala só para a malta conseguir manter o pequeno almoço no bucho;

O mau vinho: o gajo bebia como um veterano de guerra e que o diga a Graça Machel, que quando a conheci era uma caucasiana de 50 quilos, e sofreu mais com ele em duas semanas, que com as piadas do Samora durante toda a vida;

O ambiente: o gajo não separava o lixo, aliás nem conseguia distinguir bem entre o amarelo e o verde, tanto que, uma vez, quando eramos miúdos, o apanhei a comer uma azeda ao contrário e pensei se este gajo acabar o nono ano, vou a Fátima e tenham em atenção que estávamos numa aldeia sul-africana;

O cárcere: toda a gente acha que foi com grandes atos de afirmação pessoal que o gajo sobreviveu aos duches da prisão, mas um amigo meu que esteve dentro com ele (assaltou uma loja de circuitos de vigilância em Pretória) diz-me que o gajo urinava no duche e que, tomava vitaminas do complexo B para tornar a urina fluorescente e assim assustar os sodomitas, que, como qualquer pessoa normal, não gostam de porcalhões;

O antagonista da vida: o homem detestava bébés. Também não ia à bola com cães pequeninos, mesmo aqueles que são vestidos pelos donos. É preciso dizer mais?

Friday, November 08, 2013

Eu sou o melhor gajo do mundo a jogar ao macaquinho do chinês, mesmo quando jogo contra malta de Alfama (mais difícil de eliminar pela via “Vi-te os dentes”), isto porque consigo intercalar a inércia de um Stephen Hawking com o repentismo de um Jackie Chan, tanto que da última vez que joguei, cada vez que a gaja que estava a apanhar se virava, eu tinha uma nova cagadela de pombo no casaco e mais vinte cêntimos numa lata de salsinhas Nobre usada, que nem sei de onde apareceu, tal o meu nível de imobilidade, e mesmo assim consegui acabar a cena antes que o Chico Gago dissesse “Brócolos” e isto tudo sob o olhar atento do senhor Pires, antigo melhor gajo do mundo a jogar ao macaquinho do chinês, que alegadamente engravidou uma gaja enquanto esta contava até 3 (não há testemunhas, mas há um puto que, com vinte anos, atira fezes ás pessoas e tem um metro e vinte (se isto não é um macaquinho do chinês então não sei (curto bué parêntesis))), tamanha a subtileza e agilidade do homem, só que o Parkinson já lhe escorria pela família e agora, para lhe tirar fotografias como deve ser, só pousando a câmara naquelas máquinas que calcam a calçada, porque se não aparece todo desfocado, tanto que na última fotografia de grupo, pensava que ele era o anjo de guarda de alguém, mas se aquela malta tivesse anjos da guarda, eu teria que numerar os meus ou criar mnemónicas relacionadas com autores russos.

Friday, October 18, 2013

Eu sou o melhor gajo do mundo a encaracolar laçarotes de presentes e digo isto antes do natal, antes que apareçam aqueles lojistas sazonais que, por terem formações de dois ou três dias com tesouras fiscars e laços de chiffon, acham que conseguem reproduzir peças de arte como aquela que eu criei na minha última visita à Sephora, quando fui comprar um presente para a minha chavala, que é asseada e corta as unhas e, a partir de uma fita preta frouxa, desmaiada sobre o embrulho, criei um bucket negro que parecia a axila do Bonga, densa e cheia de espirais, que até a gaja que estava a atender começou a bater palmas em crescendo, como naquele filme – Namorada aluga-se – e quando olhei novamente para ela, parecia um daqueles palhaços que vejo nos meus sonhos, com a maquilhagem toda borrada de tanto chorar e quando saí da loja, o alarme tocou violentamente, mas ao invés do tradicional toque “agarra que é ladrão” explodiu uma melodia que parecia Wagner e ainda me perguntaram se tinha ticket do parque para validar, que me davam estilo parqueamento vitalício, com a possibilidade de atravessar o carro em diagonal no quadriculado do estacionamento, mas eu ando bem é de transportes públicos, até porque sou o único gajo do mundo que tem o L-1234, que me dá acesso a todas as linhas ferroviárias (incluindo as mineiras), a carros particulares anteriores a 2001 e ao casino chinês que funciona por debaixo da estação de metro de Arroios.